quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Revelação


O espetáculo vai começar.

Entre tantas personalidades, entro em palco como personagem.

Para vocês sou a gargalhada, a lágrima escondida
sou a saudade de alguém em épocas vividas
a peça fundamental para a imaginação.
Sou o mundo lhe trazendo informações.

Para as crianças sou a magia do rosto colorido.
Um espetáculo inteiro de inocência e sorriso
e o poder de causar a vontade de ser diferente
de querer um amanhã melhor e ser visto como gente.

Eu interpreto
Eu manifesto
Eu: concerto e desconserto

Eu sou música
Eu sou dança
Eu sou pintura
Eu sou lembrança

Cortinas fechadas,
saio do palco e quem me espera se chama rotina.
Lavo meu rosto e com muito gosto volto pra minha vida.

Levem meu personagem
levem meu texto
levem essa historia hoje contada
é assim que vai lembrar-se de mim.

Porque na vida real
você não me conhece,
não sabe nada sobre mim.
Portanto para ao meu público
sou conhecida e registrada como


ARTES CÊNICAS

(Cintia Scalco)

sábado, 29 de agosto de 2009

Conquista

Deita teu corpo no meu e que eu seja o leito mais tranquilo.
Espalha sobre mim teus cabelos macios e gruda na minha, o cheiro da tua pele.
Solta todo o peso da tua alma,
que eu fui feita só pra isso, para ser teu suporte,
teu sustento.

Toma meu corpo inteiro com tua mão,
porque é teu poder,
porque é minha vontade.

Encosta o canto da tua boca no cantinho da minha
alimentando a minha esperança de roubar teu gosto.
Me olha daquele jeito, fazendo cara de quem quer sem querer
e é isso todo dia,
me conquista,
me perde,
me conquista.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A rotina é a guilhotina do amor

Muito prazer em “desconhecê-la”. Jamais havia passado por tal experiência antes, em toda a convivência que tive na vida com as mais diversas pessoas. Nunca pensei que saísse do papel a força de vontade em recomeçar, recomeçar de verdade, com respeito, com magia...
Ah, com todo respeito, se falo em recomeço não é pedindo-lhe fidelidade, porque não é a mim que deve tal virtude, mas à ti mesmo, mas falo de sustentar até onde minha força agüentar e o fio da esperança não arrebentar, o sentimento sublime que habita meu coração tão novo e já cansado das estripulias da vida.
Nunca pensei olhar com tal curiosidade e tocar com tal receio, um ser que por meses e meses parecia uma parte de mim. Não imaginei nunca esperar um telefonema, um gesto de carinho, um cruzar na rua, uma coincidência com tal ansiedade, de quem por certo, há alguns dias tinha isso como obrigação mútua.
A rotina é a guilhotina do amor.
A partir do momento em que o ritual passa a ser mais que eventual, uma estrutura pesada e enferrujada, com lâminas afiadas, decepa a naturalidade dos sentimentos. Se todos os dias, a tal hora sei que tenho de beijar alguém, então não haverá nunca surpresa algum no beijo e um beijo sem surpresa é seco, frio e sem sabor.
Se já não me pego olhando-te quando estás distraída, sugiro que fiquemos sem nos ver por algum tempo para que meu olhar volte a necessitar da tua fisionomia e saiba se contentar com a tristeza ou a alegria dos teus olhos.
Se eu passar a me importar mais com os teus desejos por outras pessoas do que entender teu desejo por mim, então eu mereço dias de solidão, porque afinal, se desenvolvi o mínimo de inteligência, devo perceber que a liberdade, assim como cabe a mim, deve servir a ti com a mesma intensidade e que se desejas, com a tua alma, outros braços ou outra companhia, é direito teu que desfrutes.
O mistério que vejo em volta de ti faz com que eu pense agora, até que ponto me ensinastes tudo isto com ou sem pretensão.
Confesso... é doloroso o caminho para aprender o amor. Não nego que preciso abandonar um pouco de mim para permanecer em ti, e que não exijo que te abandones para se manter em mim porque em toda a história sempre foi assim: o ser que ama e o ser amado. Não está errado, não é pecado nem é injusto, é pura e simplesmente a fórmula do amor: meio doce, meio amarga.
Despeço-me, ilustre desconhecida, com um beijo no rosto – este que desfaz o que acabara de acontecer com tamanha intensidade e que inicia a expectativa por aquilo que está por vir, não se sabe quando, não sabe como, não se sabe onde, mas que por fé, acredito, de tempos em tempos precisará matar tua sede e fome em mim.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Há coisas que acontecem de repente, como se fosse a primeira vez.
Não se sabe quando vai acontecer outra vez, mas parece que sempre será a primeira.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ambíguo

Preciso te dizer que às vezes teus olhos me fitam, como se fosses uma desconhecida, como se me desconhecesses. Mas de certa forma és tão intrínseca a mim que me confundo toda, mas me certifico, sem dúvida alguma que se não te conhecesse não repararia na chuva, não conheceria a sensação de sentir uma respiração tão terna.
Quero que permaneças em mim, assim como minhas entranhas que não podem estar em nenhum outro lugar que não seja dentro de mim.
Não te peço que mudes não te peço que abdiques não te peço que excedas. Quero-te do jeito que és explosiva e branda, quando queres ganhar o mundo e quando queres esconder-te dele.
O que me acontece é uma paixão que não cessa. Impossível explicar porque é novo para eu amar de maneira plena, além de uma fase, além de uma euforia.
Abri um mundo de perigos e possibilidades ao aceitar para mim este amor que por tantas vezes, que por um tempo eterno em mim foi unilateral. De mim para ti, apenas.
Todas as manhãs quando acordo me dou por satisfeita com a vida que tenho, exceto quando penso que dormir e acordar ao teu lado não era nada do que eu queria até pouco tempo. Acontece que há pouco tempo eu era alguém completamente diferente que hoje está assustada com tudo que mudou em volta, as pessoas, os lugares, os cheiros, os gostos.
De uma forma geral eu estou feliz. Sinto-me bem na tua companhia, sinto que nos acertamos, nos completamos na maior parte do tempo, embora em momentos de desencontro vem a maldita noção de que algo está muito errado e que o tempo será cruel com esta parte da vida que acabamos deixando para trás. Só que sem você, eu me deixaria para trás, para nunca mais me encontrar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O Coração par ti do,
a mágoa repar tida,
os dias divididos em sim e não.
Mais fácil, o fim.
A sorte, é que facilidade não cabe nem a você,
nem a mim.
De fato, a mesma rotina que dilacera
é a força da reconstrução
num
tijolo
por
tijolo
o ardor de cada m e t r o quadrado
a sincronia de nossas mãos,
que na obra se desencontram,
e no afeto não se separam.
Somos de cada uma o reflexo oxelfer do bem meb e do mal lam,
distantes e confortadas com a certeza da volta
e juntas,
perturbadas com a possibilidade de não se distanciar nunca mais.

quarta-feira, 8 de abril de 2009




Enquanto o mundo lá fora não para,eu peço perdão a Deus pela felicidade plena.

Ser feliz não é coisa de qualquer um, nem deve ser plenoporque as coisas para a maioria das pessoas não vai tão bem e até a mim,

me faltam outras coisas, mas que são nada.

Mas antes da minha plena felicidade, que Deus perdôe esta mulher.

Ser uma mulher assim, não é coisa de qualquer uma,

Ter uma mulher assim preenchendo aquilo que falta de mim mesma, isso é bondade divina.

A mulher por quem cometo o pecado da felicidade tem mil faces,

mil fases,

mil disfarces.

Segura, mas de palavras falhas.

Doce, mas forte demais.

Forte, mas criança demais.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Repentino

por Lari e Léo.

de repente, a gente percebe o sopro que é a vida.
de repente, sem planejar, a gente dá uma volta entre os mortos e pensa na hiatória guardade em cada palmo debaixo da terra.
de repente, "eu me vi com medo de viver comigo apenas e com o mundo".
de repente, eu te amo um pouco mais.
de repente a gente percebe que somos feitos de sonhos.
e repente o acaso nos apresenta os deletérios.de repente somos apenas o repente.
de repente somos um corpo, afinal, recheio de gente.
de repente, em cada extremidade, um dedo.
de repente, utilizamos para tocar, e lembrar que precisamos sentir.
de repente é amor, então, sintamos ainda mais.
de repente, água ardente pra curar a dor,
de repente, água ardente pra esquentar o amor.
de repente, somos eu e você.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Produtividade ociosa

O ócio produtivo me consome o masso de cigarros,
A fumaça é como a vazão das coisas
E eu penso tanto quanto o tanto que não faço.
Este é um ócio perturbador
e perigoso.
Arrependo-me e me agrido,
Nestas horas de pensar e tragar.
Acrescento-me do que ainda não fiz,
mas que por isso, ainda se salva:
há o que fazer.
A primeira luta travada
Derrama dentro de mim, o sangue,
Esvai-se em palavras hemorrágicas e vermelhas.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Noturna

Que besteira achar que posso enfeitar-te
com poesia.
Já és tu, um pequeno adorno no dia,
de rimas mal acabadas,
que é descompassada a tal alegria.
Me interrompes agora,
com melindres sonolentos,
me irrompe pela manhã
com digna euforia.
Para o menino dos olhos, João Felipe.

Matutina

Esses pássaros da manhã,
de disposição invejável,
estão aqui, como não estão
e cantam.
Fazem uma doce ronda,
em volta das casas e das árvores
e numa manhã destas,
despertam a poesia.
E não calam,
não calam.

Concepção

Vivo absolutamente tudo que me é apresentado.
O que é de sofrer,
sem dó nem piedade,
o que é de gozar,
sem medo e pudor.

Diariamente

Há dias em que sou de luta,
outros, de poesia.
Quando sou dos dois,
me sinto indestrutível.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Quente

E eu ainda me impressiono com a paixão.
Ela é que até pode ter se acostumado comigo,
mas eu não me nego,
me atiro.
Refresco pra mim é lava de vulcão,
com paixão, ou se deixa lambuzar ou nem lambe.
A razão eu deixo para as convenções de
nascer,
crescer,
reproduzir,
morrer.

Estou aqui é para o repouso do que quer arder.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Frustração

Desde sempre a incoerência.
O que pouco se mostra é o que vejo,
em tarde de sol esqueci-me as cortinas fechadas,
em dias de chuva saí de sandálias.
Do avesso ao vício, só os da mesma estirpe notam minhas virtudes mutantes.
Sonhei com piqueniques no parque
e afeto no café da manhã.
A hipocrisia me faz correta,
o correto faz que eu me traia
e a sensatez me deixa um tanto infeliz.

Estrada

Essa coisa de ausência
de tchau, de boa sorte,
essa estrada,
que longa ou não, assombra e desampara.
Esse vaidoso destino,
é diferente pra cada um na sua malandragem.
Ausência é coisa que não se faz.
Saudade é coisa que não se dá.
Esse hábito,
esse vício,
essa gente que me gruda e que me deixa,
que eu deixo.
Abstinência do me é alívio,
falta do que me alimenta sem engordar.
Há afeto e distância,
há rotina e estrada.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

abandono

Digo que não pense em mim, que não me procure,
que me deixe tentar fechar essa ferida que já se abriu.
Mas eu perco pra mim mesma.
Eu ligo, eu penso desesperadamente,
eu lambo essa ferida como se fosse a única dor de infinito prazer.
Porque a dor se chama você.
É uma dor de cabelos negros,
é uma dor cujo corpo já foi meu na intensa entrega do sentimento.
A dor que eu tenho tem dois dedos do pé, grudadinhos
e gargalha bem alto quando eu faço piadas sem graça.
Minha angústia é você.
É você o anjo que esqueceu de ser puro,
que desceu pra cá com desejo e sentimento
e capacidade de sentir na carne que os anjos não têm,
essa dor também,
a nossa dor.
E eu te entendo, mas te quero.
O querer tira a sua razão em me deixar,
o querer me faz ter medo e lhe deixar.
Mas eu lhe quis desde que seu corpo me apareceu crescido
e desde que você me apareceu ouvindo Chico,
não tenho pernas para sair de nós.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

As aparências enganam

Perto de onde trabalhavam operários de uma pequena cidade, morava alguém incomum. Uma mulher de meia idade, cabelos branqueando e velhos colares. Ela não era incomum por ter algum tipo de atitude decente que a fizesse diferente dos demais idiotas da redondeza. O que a fazia ser lembrada era sua mão esquerda, com apenas três dedos - seu vizinho, o pai de todos e o fura bolo - cujas unhas pintadas de esmalte prateado faziam com que ela lembrasse do triste episódio que a marcaria para sempre.
A estranha mulher fora atacada por uma cobra que tinha pernas. A cobra com pernas abocanhou seus dois dedos - o mindinho e o mata piolho - e isso fez da quase velha, uma pessoa amarga e rejeitada. Suas unhas, da mão direita estavam sempre incolores e feias, já que com apenas os três dedos - seu vizinho, o pai de todos e o fura bolo - ela não conseguia pintar de prateado as unhas. Portanto apenas os três dedos da mão esquerda tinham as unhas prateadas. Até que um gato persa apareceu em sua porta, lhe dando a atenção que ninguém dava, tudo por conta dos dois dedos - o mindinho e o mata piolho - que a cobra de duas pernas havia comido. E o gato persa lhe pintava as unhas de todos os dedos e as unhas reluziam um prata vivo, alegre... até que um dia... ao tirar o esmalte da mão com os cinco dedos, a mão direita, o gato inalou acetona e morreu, chapado, locasso. A velha ficou outra vez com cinco unhas incolores e apenas três dedos da mão esquerda com as unhas prateadas.
Já não havia mais razão para viver. Tomada pela raiva e a rejeição do mundo, a mulher de meia idade, além de ter dois dedos da mão esquerda comidos por uma cobra de duas pernas, decepou seu seio direito e passou a freqüentar um bar da cidade, onde bebia e fumava sem parar.
Um dia, chegou no bar um homem que não era como todos os babacas que sempre estavam lá ignorando aquela amargurada mulher. E ela se apaixonou, ele a amou e os dois foram felizes, mesmo ela tendo apenas três dedos na mão esquerda, com as unhas prateadas e os outros cinco dedos da mão direita, incolores e um seio decepado. Isso tudo porque o universo conspira. Os dois partilhavam da mesma dor, já que ele, o cara que não era babaca, teve o pênis abocanhado, também pela cobra de duas pernas.
Com o passar de algum tempo, o jovem senhor sem pênis descobre a veracidade do velho ditado: as aparências enganam. Sendo feia, a velha era rejeitada. Mas, não era rejeitada apenas porque era feia. Seu humor era tenebroso. Vingativa, ciumenta, manipuladora. Já não bastava a cobra ter-lhe comido o falo, agora a mulher queria arracar-lhe os bagos?
Fez-se impor: colocou veneno na comida dela, com o dinheiro que ela deixou fez um implante de pênis e casou com uma menina novinha, que pinta as unhas de rosa-claro.

Stella, Lari, Mathe, Indi e Fabi
Autores reunidos jamais serão vencidos pela lucidez deste mundo real sem graça alguma.

sábado, 27 de outubro de 2007

Bienvenidos




Desde sempre, o Paraguai é um país atrativo. O comércio de importados e outras quinquilharias sempre levou Brasileiros a cruzarem a fronteira brasileira Foz do Iguaçu, no Paraná, com a de Ciudad del Leste. Isso é tão tradicional quanto encontrar o litoral de Santa Catarina invadido por hermanos paraguaios, argentinos e outros latino-americanos. Assim como também vão a Argentina, através de Barracão ou mesmo Foz, brasileiros ávidos pela boa cerveja argentina engarrafadas em litros, o doce de leite, os torrones, os alfajores, os enlatados, os tecidos e é claro, o cassino.
Mas o Paraguai vai muito além deste turismo consumista. É na Ponte da Amizade que cruzam os mais fascinantes profissionais do comércio. Logo que chegamos, cedinho numa manhã de sexta-feira, o movimento já era significante. O calor ainda não tinha mostrado suas chamas e o aspecto, visto do começo da ponte ainda não era a realidade que se encontra lá dentro.
Motocicletas velhas, carros sujos, bicicletas por toda a parte e muita gente caminhando freneticamente. Homens de calça social e camisa branca, etiquetados com crachás passavam em minutos do Brasil para o Paraguai, com hora marcada para iniciar a jornada. Montes e montes de pessoas que apuravam o passo eram, como eu, notoriamente de fora, distantes daquela realidade de fronteira.
Cruzei a ponte com uma sensação de isolamento de todo o resto daquela gente que queria comprar. Melancolicamente eu pensava no quão é ilimitado o espaço e o tempo ali. Eu estava num outro país da América Latina. Assim que finalizei a ponte, o que se abriu em minha frente foi a famosa visão do inferno que me encantou.
Ruas imundas e fedorentas, num cheiro que mistura churrasquinho grego, esgoto, mofo e urina. As paredes de todos os lugares são sujas, emboloradas, sem pintura e sempre há em algum canto um balde já cheio, onde pingam sem parar gotas de uma água marrom que eu não sei de onde vem. Nos shoppings ou nos camelôs das ruas tudo é da mesma forma. Garotos e garotas que empacotam, lacram e despacham mercadorias. Gente com mochila, sacola e mãos cheias. Gritos de ofertas, câmbio, publicidade que sai da garganta daquela gente com traços indígenas, bugres, americanos.
Há quem esteja por lazer, depois de ter tomado um belo café em algum resort de Foz do Iguaçu, há quem tenha saído de sua cidade apenas para conhecer ou para comprar por mais barato e há quem esteja lá por acaso da rotina, por trabalho. Os sacoleiros, muambeiros ou contrabandistas, como costumam ser chamados estes verdadeiros heróis da fronteira.
Brasileiros sagazes, cheios de manha e jeitinho. Certos ou errados, não me importa. Estão numa luta diária que faz chegar até nossas mãos produtos sonhados por nós. Homens e mulheres que entram e saem de becos cheirando a mijo como se estivessem num labirinto, mas que sabem muito bem o caminho para sair e voltar quantas vezes for necessário. É calor. O suor está em todos os corpos que circulam ali. Os cabelos desarrumados em meio a tantas coisas pra carregar e pensar no preço, na qualidade, na garantia e em como passar pela aduana.
Todas as relações no Paraguai parecem ser de negócio, de troca, de disputa, de esperteza. Os imigrantes do Oriente Médio são simpáticos, porém não vacilam em descontos. Oferecem o produto e baixam muito pouco o valor. As mulheres com turbantes pelas ruas, exibem anéis, brincos e colares de ouro. Ishalá!
Os nipo-brasileiros podem ser encontrados mais nas lojas de eletrônicos, mais reservados. Os brasileiros estão vendendo em todas as lojas de todas as coisas, mas pensam em dólar. Esses sim, sempre ajudam nos descontos. E os anfitriões disso tudo também estão em todas, falando um portunhol arranhado e cambiando, sempre!
Passar a ponte num calor infernal depois de um dia exaustivo é uma condição quase sobre-humana. O medo de perder mercadoria declarada legalmente dentro da cota de U$ 300 e de ser pego com aquelas que estão por dentro das calças, das meias, nos bolsos, na mochila. É uma tensão. Na aduana, depois da ponte, a prova de fogo é mostrar tudo o que há de certinho para o pessoal da receita federal. Porque mesmo o certo, muitas vezes não é perdoado. É preciso chegar no Brasil e vender. Lucrar, sustentar-se daquilo. O Paraguai é a mistura da sujeira, da pobreza e do consumismo, do capitalismo, da superficialidade social. Não existe resistência. Quem vai pra não comprar nada sai com algum eletrônicozinho, um perfume importado, uma lembrança, um presente pra alguém. Ao fim da viagem, alguns voltam para os resorts, vestem roupa de banho e aproveitam a piscina. Outros, enfrentam horas de viagem e barreiras policiais, algumas bem, outras mal intencionadas.

sábado, 20 de outubro de 2007

Literatura Barata

Miro gostava de ver seu avô na sapataria. Gostava também das senhoras que levavam os sapatos dos maridos para o conserto. Era Miro quem as atendia. Jovens senhoras, com os peitos bem apertados na blusa e a saia justa na bunda levantada pela meia-calça. Todas davam um jeitinho de achar estragos nos calçados de seus homens para irem até a sapataria do velho. Miro era ainda muito jovem para saber por que suas calças apertavam no meio das pernas, por trás do balcão.

Literatura Barata

Ela queria que fosse diferente, sempre quis. Nilson não era o homem que ela sempre sonhou, mas que mal tinha tentar amá-lo? Tudo bem que ela queria sentir calafrios quando ele a tocava e queria arder em desejos todas as vezes que o marido chegava do trabalho e queria porque queria trepar. Ela não sentia é nada, coitada.
Nilson era bruto, mas só queria a esposa. Ele a amava tanto que nunca percebeu a falta de apetite dela.
E ela que se esforçava tanto, a pobre.

Literatura Barata

Sempre doce com seu filho, Mirian era o exemplo de mãe a ser seguido.
Preparava o lanche, arrumava a roupa para o dia seguinte, conferia o material da escola.
Acariciava o tempo todo, todos os dias, a foto do menino. Que injustiça divina um filho morto com uma mãe tão dedicada.

Literatura Barata

A pequena Isabela sentava-se todos os dias na varanda de sua casa. Ficava ali, quietinha enquanto as pessoas passavam apressadas pela calçada.
Era como um ritual para ela. Gostava de ouvir os carros, as conversas, os passos. Era uma ouvinte atenta.
Ela só não sabia por que não conseguia enxergar tudo o que emitia aqueles sons.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

No jornal...

Bate a porta na cara da solidão.
Pra avenida resolver.
Vermelho, verde.
Bate o pé inquieta.
Olha para as pessoas.
Verde,
amarelo
vermelho.
Vá!
Cuidado!
Páre!
Vermelho, verd...
"Garota atropelada já havia tentado suicídio mais de uma vez"
Aqui jaz, mais uma vez.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007


Ai de mim que em outra vida encomendei você.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

ah, minha saúde....

Não gasto meu tempo ou dinheiro indo ao médico, ao dentista ou ao oftalmologista. Uma vez gastei 300 paus com psicanálise, os quais emprestei e até hoje não consegui pagar. Foi um dinheiro que investi apenas para ficar com mais medo da minha gigante hipocrisia. Ela ali sentada me ouvindo e eu pagando sem ter coragem pra dizer que... e que...., e olha só, eu.... .

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Vertigem

Abstenha-se.
Deixe para lá qualquer coisa que lhe reste,
porque tudo é sensação.
Um ato involuntário do seu corpo,
essa sombra cintilante,
que desgruda e revela então,
do que é que estamos encobertos
e há duas coisas separadas aí.
Um duelo entre o que é real e qual é o disfarce.
O que desprende não pertence a nada.
O que fica,
desnudo,
em carne viva,
é o que é.
Não se vê na lucidez
nem se sente em outra pele,
nem se pensa o que os livros podem dar
e eu penso.
Para onde foi o que desprendeu?
Quem ficou?
E se você ainda precisar,
ah! todos precisam vestir-se daquilo que não é,
que não há.
Não se pode voltar,
não deixe voltar.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Trivial

Quero ao meu lado apenas quem aceite,
como presente de Natal, uma poesia.
Procuro por quem não acredita muito no Natal,
mas como eu, sente uma certa ansiedade pelo revellion.

Mas quem, como eu,
se pergunta para onde vão as pombas no fim da tarde?
E quem as percebe no cedo da manhã?
Pra onde mesmo é que elas vão?

E quem, como eu,
procura borboletas em volta de ti?

E quem é que ainda canta,
adeus ano velho, feliz ano novo?
Se me dizes que o fazes sem restrições,
ficarei ao teu lado,
até que o fogo não se apague,
nem com a água mais límpida.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A necessidade do caos que não se deseja

Há algo rompido dentro de mim,
um amor, uma coisa que nunca decifrei ao certo.
Há uma dor e um pedaço sem cor,
uma flor sem pétalas
uma borboleta que fugiu do meu estômago.
Do jeito que era,
um rompimento comigo mesma,
com metade de mim.
Chegou, enfim, o caos indesejado e necessário
a dor que vai me resgatar
a ausência que vai me matar
uma partícula triste de um adeus presente
nos separamos sem sair dos nossos lugares
teu lugar sempre foi dentro de mim mas eu estive sempre
do teu lado de fora
e não demora,
estarei suspensa até do teu quintal bonito.

Ao Barzotto

Abaixo o orgulho
Enfim, seus olhos outra vez.
O perdi no caminho,
aprontei,
sofri sem você, pode acreditar.
O desdenhei,
fiz uma coletânea de todos os seus defeitos -
os que são de fato e os que inventei.
Bradei ódio e orgulho
enquanto sentia falta de como nos compreendemos
de como precisamos apenas nos olhar.
Tive medo do nunca mais você comigo
tantas vezes desviei o olhar – pra você não me entender
e perceber que era só da gente que eu precisava.
Corri da vontade de abraçar você e só aceitei isso,
quando num sono curto nos abraçamos outra vez.
No fundo eu até gosto das suas fúrias,
do seu relaxo com as coisas que eu me preocupo.
Eu só gosto de enxergar você em algum lugar,
saber que está perto,
saber que estamos perto.